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Sim. Sou eu e estou aqui. Sei que ainda pensa em mim, ou alguma parte de você pensa. Talvez aquela parte infantil, já esquecida. Suprimida diante de tudo aquilo que já ouviu, viu, viveu e é.
Sei disso porque sou essa parte em você. Sou real e você me conhece bem, embora às vezes pense que não. Sou o rosto sereno que te viu pela janela do carro que passava. E que sorriu com os olhos. E que você reconheceu, nesse meu simples sussurro. Quando peguei a tua mão pela primeira vez, me fiz real em você.
O tempo e a dor roubaram algo de mim em você – e sinto que ainda roubarão mais –, algo além de minha passageira ausência. Ainda acreditando em mim – mesmo pensando erroneamente que eu não era aquela mão que pegou na tua, pela primeira vez – ouviu a minha voz e encostou a tua cabeça em meu peito. Sim, não era mais a mesma voz, o mesmo peito. E embora pegasse em teu corpo de maneira diferente, era bom. Melhor. Melhor porque você sentia que a boca que te beijava, era a boca definitiva, a boca que bastava.
Sei que quando vou a dor vem, mas entenda: eu não sou a dor. O mais próximo que chego dela é quando entro em teu corpo misturando dor e prazer. Fora isso? Sou a voz rouca que intriga e convida. O beijo que começa suave e explode. O corpo que treme e se rende. Concentrando-me todo em alguns segundos: o gozo. Depois volto a me dividir no tempo. Sou o peito em que você se deita. A mão que te acaricia enquanto dorme.
Além do tempo me divido em corpos – pessoas. Vou me entregando a você aos poucos – frações. Numa boca de cada tipo. Num abraço forte em braços diferentes. Vez selvagem outra tenro. Por vezes você se cansa de mim. Outras lhe abandono, para que possa me conhecer em outra face.
Mas você teme a dor, dá ouvidos às vozes medrosas. Rende-se à força do Mundo Real e do tempo que tudo arrasta. Vozes que me reduzem a padrões daquilo que não sou, nem nunca disse ser. E a minha voz perde força dentro de você.
E por não conseguir me ouvir mais, você se perde, procurando-me em rostos em que não estou, beijando bocas que não são a minha, se dando a quem não sou eu. Tentando me encontrar no gozo fugaz.
Agora, só quando grito você me ouve. E é por isso que estou aqui.
Não deixe que esse medo me cale. Enfrente a dor e abstraia o tempo – essa realidade que seca. Acredite em mim. Porque estou aqui chamando por você.
[e do Zapa]
Eu quero é boTÁ
