MENINO
O menino sentado na calçada. Sujo. Sujo menino. Dez ou sete. Olhos mortos, mortos agitados. Olhos que olham para o nada. Cola no peito, peito no mundo, mundo nele, ele o mundo, o mundo inteiro ele. O menino sentado na calçada.
A respiração tão baixa, tão difícil de ver, naquele menino sentado na calçada, o menino de dez ou sete, talvez nove, o novo menino. Com aquela camisa tão maior que ele, que de tão folgada não dá pra ver a respiração do menino. Camisa suja, rasgada e folgada, mas não mais suja ou maior que o menino, menino que é o mundo inteiro, o mundo inteiro dentro do menino.
Mesmo com os olhos mortos agitados, que olham para o nada. Ali parado na calçada, todos têm medo do menino, medo do menino de nove ou sete, que é menor que a camisa, só que é do tamanho do mundo e é por isso que eles têm medo do menino.
A cola não o faz dormir nem o faz morrer, não de uma vez. O faz ficar ali sentado na calçada com os olhos mortos, mas agitados, olhos zumbis, olhando para o nada, enquanto todos olham com medo para o menino.
A menina passa.
O menino que não via os carros , ônibus e motos que marchavam perigosamente diante de seus pés. Que não via também as pessoas que desviavam dele segurando bolsas, carteiras e conferindo os bolsos. Olha para a menina de vinte um ou vinte dois, menina de shorts pretos, blusinha branca com gatinhos coloridos, tênis leg de cadarços prateados, que combinavam com o colar de bolinhas parecidas com grãos-de-bico, um grão-de-bico prata que combinava com um dos gatinhos coloridos. Olha para a menina que diferente de todos que passavam não via o menino. O menino dá um salto e como se todos aqueles carros e motos, que marchavam perigosamente, não existissem, ele os atravessa. No salto do menino os que seguravam bolsas e carteiras têm mais medo ainda, seguram mais forte suas bolsas e carteiras, alguns param, outros andam mais rápido, todos se afastam do menino. Pelo temor que o menino causa na massa, pela habilidade com que atravessa os carros, fica mais fácil entender porque o menino de nove ou dez é do tamanho do mundo e o mundo inteiro nele, apesar da camisa folgada.
O menino que parou parte do mundo e que atravessou a outra parte como se ela não existisse, vai em direção a menina que não o vê. Vai rápido, rápido não com a velocidade de quem corre, sim com a velocidade de quem tem um mundo inteiro dentro de si. A menina que passa, ainda não o vê, quando ele já começa a chegar do seu lado da rua, ela não percebe que ele vai em sua direção. Nem as pessoas que estão desse lado percebem, é difícil prever a direção do menino e é por isso que todos que não sabem para onde, nem porque, vai o menino, começam a segurar bolsas e carteiras. Antes de chegar até a menina que passa, o menino para. Olha para os cabelos da menina, cabelos em forma de arco, que passam um pouco da altura dos ombros, cabelos presos com uma faixa preta, preta da cor do tênis com cadarço prata. Olha a menina, e volta a parar no tempo, com seus olhos mortos e agitados, como se estivesse olhando para o nada, só que agora o menino olha para a menina que passa e que ainda não o percebeu.
A menina que passa, que não vê o menino, ela com seus olhos vivos, olhos vivos que vêem o mundo inteiro, menos o menino. Ela que passa, o mundo inteiro passa por ela, apesar da beleza infantil, de seus vinte ou vinte três, de seus olhos que podem ver o mundo inteiro, menos o menino. Ela que vem, mesmo sem saber vem, vem em direção ao menino. Ela que vê o mundo inteiro menos o menino, vê então o mundo inteiro parado, um mundo inteiro parado, parado ao redor de um menino. Um menino parado que olha para ela.
E ela, apesar dos vinte dois ou vinte três, teme o menino da camisa folgada, tenta apertar a bolsa que não carrega, proteger o colar de grão-de-bico prateado. E pára diante do menino que pára o mundo. Ela pára e nesse segundo eterno pensa, pensa em entregar a bolsa que não carrega, em entregar o colar que nada vale sem cadarços prateados para combinar. E o menino que era o mundo inteiro, nesse segundo sem fim, é apenas um menino de oito anos, oito anos que vêem a menina parada e pensam, pensam em dizer: “não quero dinheiro não menina”, “nem bolsa! Você nem tem?”, “que colá bonito menina, da cor do cadaço do tenis”.
E mesmo sem abrir a boca, sem falar aquilo que não precisa dizer. Ele já diz a única coisa que precisa ser dita:
Olha pra mim menina. Olha pra mim.
Zeitgeist - Official Release (Portuguese)
Criança alienada, cuidado! Um Rockfeller pode implantar um chip no seu pé, à noite, na cama, enquanto dormes.

