O Segredo das Veredas
"Eu estava todo o
tempo quase com Diadorim.
Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com
assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não
é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a
bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é
feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava.
Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia
morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam."
"Meu corpo gostava de
Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia,
bobamente, ele me olhou – os olhos dele não me deixaram.
Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi
– ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha
percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo
dele, na sala do teatro. Maiormente. As tristezas ao redor de nós,
como quando carrega para toda chuva. Eu podia pôr os braços
na testa, ficar assim, lorpa, sem encaminhamento nenhum. Que é
que queria? Não quis o que estava no ar; para isso, mandei vir
uma idéia de mais longe. Falei sonhando: – “Diadorim, você não
tem, não terá alguma irmã, Diadorim?” – voz minha; eu
perguntei.
Sei lá se ele riu? O que disse, que resposta? Sei quando a
amargura finca, o que é o cão e a criatura. De tristeza, tristes
águas, coração posto na beira. Irmã nem irmão, ele não tinha: –
“Só tenho Deus, Joca Ramiro... e você, Riobaldo...” "
Grande Sertão: Veredas
tempo quase com Diadorim.
Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com
assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não
é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a
bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é
feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava.
Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia
morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam."
"Meu corpo gostava de
Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia,
bobamente, ele me olhou – os olhos dele não me deixaram.
Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi
– ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha
percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo
dele, na sala do teatro. Maiormente. As tristezas ao redor de nós,
como quando carrega para toda chuva. Eu podia pôr os braços
na testa, ficar assim, lorpa, sem encaminhamento nenhum. Que é
que queria? Não quis o que estava no ar; para isso, mandei vir
uma idéia de mais longe. Falei sonhando: – “Diadorim, você não
tem, não terá alguma irmã, Diadorim?” – voz minha; eu
perguntei.
Sei lá se ele riu? O que disse, que resposta? Sei quando a
amargura finca, o que é o cão e a criatura. De tristeza, tristes
águas, coração posto na beira. Irmã nem irmão, ele não tinha: –
“Só tenho Deus, Joca Ramiro... e você, Riobaldo...” "
Viver é muito perigoso
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O Gay Leão
